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Meios de comunicação, alienação e indústria cultural
TEORIA DAS ORGANIZAÇÕES
Gilles Lipovetsky: Hipermercado, Hipertecnologia e Hiperindivíduo na Sociedade Contemporânea
Rogério Cavalcanti
Gilles Lipovetsky, sociólogo e filósofo francês, aborda diversos fenômenos contemporâneos através do conceito de “hiper” em seus trabalhos. Três desses conceitos são o hipermercado, a hipertecnologia e o hiperindivíduo.
Hipermercado
Lipovetsky utiliza o conceito de hipermercado para descrever a evolução do consumo e do comércio varejista. O hipermercado representa não apenas um tipo de estabelecimento comercial, mas também um símbolo da sociedade de consumo contemporânea.

- Espaço de Consumo Massivo: Hipermercados são grandes superfícies de venda que oferecem uma vasta gama de produtos sob o mesmo teto, desde alimentos até eletrônicos e roupas. Eles são projetados para maximizar a conveniência do consumidor, permitindo compras rápidas e abrangentes em um único local.
- Cultura do Consumo: Segundo Lipovetsky, os hipermercados refletem e alimentam a cultura do consumo. Eles são parte de um sistema que incentiva a compra impulsiva, o desejo de novidades constantes e a satisfação imediata das necessidades e desejos.
- Economia de Escala e Preços: Esses estabelecimentos utilizam economias de escala para oferecer preços competitivos, atraindo uma ampla base de consumidores e, assim, moldando os hábitos de compra da sociedade.
Hipertecnologia
O conceito de hipertecnologia refere-se ao avanço tecnológico acelerado e suas implicações na sociedade moderna.

- Proliferação de Tecnologias Avançadas: Hipertecnologia denota a presença onipresente e o rápido desenvolvimento de tecnologias avançadas, como a inteligência artificial, a biotecnologia, a nanotecnologia, entre outras.
- Transformação das Relações Sociais: Lipovetsky argumenta que a hipertecnologia transforma profundamente as relações sociais e econômicas. A comunicação, o trabalho, o lazer e até mesmo as relações pessoais são reconfigurados pela tecnologia.
- Sociedade da Informação: Vivemos em uma era onde a informação é um recurso central. A hipertecnologia facilita a coleta, armazenamento e disseminação de informações em uma escala sem precedentes, influenciando praticamente todos os aspectos da vida cotidiana.
Hiperindivíduo
O hiperindivíduo é um conceito que descreve a evolução do individualismo na era contemporânea.

- Individualismo Radical: Diferente do simples individualismo, o hiperindivíduo representa uma forma extrema de individualismo, onde a autonomia pessoal e a busca pela realização individual são elevadas a um novo patamar.
- Autenticidade e Autoexpressão: Na sociedade do hiperindivíduo, há uma ênfase crescente na autenticidade e na autoexpressão. As pessoas buscam continuamente se diferenciar e afirmar sua identidade única, frequentemente através do consumo de produtos e experiências que refletem sua individualidade.
- Desafios Sociais: Esse hiperindividualismo pode levar a desafios sociais, como o aumento do narcisismo, a fragilização dos laços comunitários e a dificuldade de engajamento em causas coletivas. A busca incessante pela autossatisfação pode gerar frustrações e um senso de isolamento.
Os conceitos de hipermercado, hipertecnologia e hiperindivíduo, segundo Gilles Lipovetsky, fornecem um quadro crítico para entender as dinâmicas da sociedade contemporânea. Eles revelam como o consumo, a tecnologia e o individualismo extremo moldam nossas vidas, influenciando comportamentos, valores e estruturas sociais. Analisando esses conceitos, podemos refletir sobre os impactos positivos e negativos dessas transformações e considerar caminhos para uma convivência mais equilibrada e consciente com essas forças modernas.
O trabalho na era digital
As consequências dos avanços tecnológicos para o mercado de trabalho com um dos grandes sociólogos do país, o professor Ricardo Antunes, titular de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Há mais de 40 anos, ele estuda o mundo do trabalho. No currículo, possui diversos livros e seu último lançamento chama-se “O privilégio da servidão”. Nesta entrevista, Antunes fala sobre o novo proletariado do século XXI e a indústria 4.0.
Aspectos da desigualdade social no Brasil
Rogério Cavalcanti
A desigualdade social no Brasil é um fenômeno complexo e multifacetado, que persiste apesar do país ser uma das dez maiores economias do mundo. Esse paradoxo revela uma realidade onde a riqueza e os recursos são abundantemente produzidos, mas distribuídos de maneira extremamente desigual entre a população. A desigualdade se manifesta em diversas dimensões, incluindo acesso a educação, saúde, habitação, e oportunidades econômicas, refletindo profundas disparidades socioeconômicas.

Um dos aspectos mais visíveis da desigualdade social no Brasil é a disparidade de renda. O coeficiente de Gini, que mede a desigualdade de renda numa escala de zero (igualdade perfeita) a um (desigualdade máxima), coloca o Brasil entre os países com maior desigualdade de renda no mundo. Esse desequilíbrio é evidenciado pela concentração de riqueza nas mãos de uma pequena parcela da população, enquanto uma significativa maioria luta para atender às necessidades básicas.
Exemplos concretos dessa disparidade podem ser observados nas diferenças abissais entre regiões urbanas e rurais, bem como entre diferentes estados. Enquanto bairros nobres de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro exibem altos padrões de vida, com acessos a serviços de qualidade e infraestruturas sofisticadas, regiões no Norte e Nordeste do país, além de periferias urbanas, enfrentam realidades diametralmente opostas. Nessas áreas, a precariedade no acesso a serviços básicos como educação, saúde e saneamento básico é notória, refletindo uma concentração de riqueza nas mãos de uma minoria e uma luta constante pela sobrevivência na maior parte da população.
A questão educacional é outro ponto crítico relacionado à desigualdade social. O acesso e a qualidade da educação variam enormemente, com escolas em áreas mais abastadas oferecendo uma educação de qualidade superior, enquanto muitas escolas em regiões pobres enfrentam infraestruturas precárias e falta de recursos. Essa disparidade no acesso à educação de qualidade perpetua o ciclo de pobreza, limitando as oportunidades de ascensão social para as camadas mais pobres da população.
Enquanto escolas de áreas mais abastadas, possuem infraestruturas modernas, com laboratórios de ciências, bibliotecas abastecidas e acesso à tecnologia, escolas em regiões carentes lutam com a falta básica de recursos, incluindo instalações deterioradas e escassez de materiais didáticos. Além disso, a distribuição de professores qualificados é desigual, concentrando-se nas áreas mais ricas, o que diminui ainda mais a qualidade do ensino nas outras regiões.
Essa discrepância não apenas reflete as atuais condições de desigualdade, mas também as perpetua, aprisionando gerações em um ciclo vicioso de pobreza e limitando significativamente suas oportunidades de ascensão social através da educação.

Na área da saúde, a desigualdade também é acentuada, com grandes diferenças no acesso a serviços de saúde de qualidade. Enquanto indivíduos de classes mais altas frequentemente recorrem a serviços privados de saúde, uma grande parte da população depende do sistema público, que é marcado por longas filas de espera, escassez de recursos e infraestrutura muitas vezes inadequada. Esse cenário compromete a qualidade de vida e a expectativa de vida de milhões de brasileiros.
Exemplos dessa desigualdade incluem a realidade dos grandes centros urbanos, onde indivíduos das classes mais altas têm à disposição uma ampla rede de hospitais e clínicas privadas, oferecendo desde atendimentos especializados até procedimentos de alta complexidade com tecnologia de ponta. Em contraste, grande parte da população depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS), que, apesar de ser um dos maiores sistemas de saúde pública do mundo, enfrenta desafios como superlotação, longas filas de espera para consultas, exames e cirurgias, além de uma distribuição desigual de recursos e infraestrutura inadequada em diversas regiões. Tal cenário é particularmente crítico em áreas mais remotas e empobrecidas do país, como algumas regiões do Norte e Nordeste, onde a escassez de profissionais de saúde e a falta de equipamentos básicos comprometem seriamente a qualidade de vida e a expectativa de vida dos habitantes.

A moradia é outro vetor de desigualdade, com um grande número de famílias vivendo em condições precárias em favelas e comunidades carentes. Essas áreas frequentemente carecem de acesso a serviços básicos, como saneamento adequado, água potável e eletricidade confiável, exacerbando as condições de vida já desafiadoras. A segregação espacial, marcada pela distância física entre ricos e pobres, reflete e reforça as divisões socioeconômicas do país.
Além das questões estruturais, a desigualdade social no Brasil é agravada por discriminações que afetam negativamente grupos marginalizados, incluindo mulheres, negros, indígenas e a comunidade LGBTQIA+. Esses grupos enfrentam barreiras adicionais ao acesso a oportunidades iguais, resultando em níveis mais altos de pobreza, violência e exclusão social entre essas populações.
Esta realidade se manifesta no mercado de trabalho, onde a disparidade salarial entre homens e mulheres ainda é significativa, com mulheres ganhando menos que homens para posições equivalentes. Da mesma forma, pessoas negras frequentemente enfrentam barreiras no acesso a empregos de qualidade e educação, refletido nas estatísticas que mostram uma concentração maior de indivíduos negros em ocupações de menor remuneração e em condições de pobreza. A situação dos povos indígenas também é marcante, com frequentes conflitos sobre terras e acesso limitado a serviços básicos, perpetuando um ciclo de marginalização. Além disso, membros da comunidade LGBTQIA+ no Brasil enfrentam altos níveis de violência e discriminação, impactando negativamente seu bem-estar e acesso a oportunidades. Essas formas de discriminação não apenas reforçam as estruturas existentes de desigualdade social, mas também criam barreiras adicionais que limitam severamente as oportunidades de ascensão social para esses grupos, perpetuando ciclos de pobreza, violência e exclusão.
O combate à desigualdade social no Brasil requer um esforço conjunto e políticas públicas eficazes que visem não apenas o crescimento econômico, mas também a distribuição equitativa dos frutos desse crescimento. Isso inclui investimentos significativos em educação, saúde, habitação, além de medidas que promovam a inclusão social e econômica de todos os segmentos da sociedade.


Os esforços nessa direção incluem programas de transferência de renda como o Bolsa Família, que visa reduzir a pobreza imediata e incentivar a educação e a saúde entre as famílias de baixa renda. Investimentos significativos em educação podem ser observados em iniciativas como o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB), que redistribui recursos para as regiões mais carentes, visando melhorar a qualidade do ensino público. Na saúde, o Sistema Único de Saúde (SUS), apesar dos desafios, representa um esforço contínuo para universalizar o acesso à saúde de qualidade. Programas de habitação, como o Minha Casa Minha Vida, buscam reduzir o déficit habitacional, especialmente em áreas urbanas. Além disso, políticas de ação afirmativa, como cotas raciais e sociais nas universidades públicas e concursos, tentam promover a inclusão social e econômica de grupos historicamente marginalizados. Enfrentar a desigualdade social no Brasil é um desafio multidimensional que requer a consolidação dessas e de novas políticas, visando não apenas a melhoria das condições de vida, mas também a garantia de direitos e oportunidades iguais para todos os cidadãos, rumo a uma sociedade mais justa e igualitária.
O conceito moderno de tempo ou “a ditadura do relógio”
Rogério Cavalcanti
O texto “A ditadura do relógio” de George Woodcock *, oferece uma análise profunda e crítica sobre o impacto do relógio e do conceito moderno de tempo na sociedade ocidental. Woodcock argumenta que a obsessão com a medição precisa do tempo é um fenômeno relativamente recente na história humana, que tem raízes profundas na ascensão do capitalismo industrial e na consequente transformação do tempo em uma mercadoria. A seguir, alguns pontos-chave e análise do texto:
* WOODCOCK, George. A ditadura do relógio. In: ___. Os grandes escritos anarquistas. Porto Alegre, L&PM Editores, 1998. p. 122.



A Transformação do Tempo
- Contraste Histórico: Woodcock destaca o contraste entre a percepção cíclica do tempo nas sociedades antigas e tradicionais, onde era marcado pelos ritmos naturais, e a visão linear e quantificada do tempo na sociedade ocidental moderna, dominada pelo relógio.
- Instrumento de Controle: O relógio é descrito como uma ferramenta que permitiu uma organização e exploração laboral mais eficiente, sendo essencial para o desenvolvimento e a manutenção do capitalismo industrial.
Impacto Social e Econômico
- Regulamentação da Vida: O autor observa como o relógio contribuiu para a regulamentação da vida cotidiana, impondo uma rigidez que era anteriormente desconhecida, e transformando as pessoas em entidades tão previsíveis e regulares quanto a máquina que as governa.
- Capitalismo e a Mercantilização do Tempo: Woodcock argumenta que o capitalismo se apoderou da nova concepção de tempo, tratando-o como uma mercadoria valiosa, com o famoso adágio “tempo é dinheiro”, reforçando a ideia de que o tempo não utilizado para o trabalho é desperdiçado.
Consequências Culturais e Psicológicas
- Desumanização e Monotonia: A estrutura imposta pelo relógio e a subsequente monotonia da vida industrial são vistas como desumanizadoras, levando a uma existência que valoriza a quantidade em detrimento da qualidade, e que limita severamente o potencial humano para a criatividade e o prazer no trabalho.
- Resistência e Alternativas: O texto também aborda as formas de resistência e rejeição a essa dominação, sugerindo que uma vida equilibrada e plena requer a libertação da tirania do relógio e a recuperação de uma relação mais harmoniosa com o tempo.
Woodcock propõe uma reflexão sobre a necessidade de reavaliar nossa relação com o tempo e as máquinas. Ele argumenta que, embora o tempo mecanizado e as máquinas tenham seu lugar na sociedade moderna para coordenar atividades e reduzir o trabalho monótono, eles não deveriam dominar nossa existência. A verdadeira liberdade implica uma libertação das abstrações dominantes, como o tempo medido mecanicamente, e o retorno a uma percepção de vida mais balanceada e menos regulada por abstrações.
Em resumo, “A Ditadura do Relógio” é um poderoso lembrete da importância de questionar e, possivelmente, redefinir nossa relação com o tempo, uma construção social que se tornou uma força dominante e muitas vezes opressiva em nossas vidas. Woodcock nos convida a imaginar uma sociedade onde o tempo serve à humanidade, não o contrário, promovendo uma existência mais autêntica e libertadora.
Leia o texto na íntegra:
A Ditadura do Relógio
Por George Woodcock
(in A Rejeição da Política, 1972)
Não há nada que diferencie tanto a sociedade Ocidental de nossos dias das sociedades mais antigas da Europa e do Oriente do que o conceito de tempo. Tanto para os antigos gregos e chineses quanto para os nômades árabes ou para o peão mexicano de hoje, o tempo é representado pelos processos cíclicos da natureza, pela sucessão dos dias e das noites, pela passagem das estações. Os nômades e os fazendeiros costumavam medir – e ainda hoje o fazem – seu dia do amanhecer até o crepúsculo e os anos em termos de tempo de plantar e de colher, das folhas que caem e do gelo derretendo nos lagos e rios. O homem do campo trabalhava em harmonia com os elementos, como um artesão, durante tanto tempo quanto julgasse necessário.
O tempo era visto como um processo natural de mudança e os homens não se preocupavam em medi-lo com exatidão. Por essa razão, civilizações que eram altamente desenvolvidas sob outros aspectos dispunham de meios bastante primitivos para medir o tempo: a ampulheta cheia que escorria, o relógio de sol inútil num dia sombrio, a vela ou lâmpada onde o resto de óleo ou cera que permanecia sem queimar indicava as horas. Todos esses dispositivos forneciam medidas aproximadas de tempo e tornavam-se muitas vezes falhos pelas condições do clima ou pela inabilidade daqueles que os manipulavam. Em nenhum lugar do mundo antigo ou da Idade Media, havia mais do que uma pequeníssima minoria de homens que se preocupassem realmente em medir o tempo em termos de exatidão matemática.
O homem ocidental civilizado, entretanto, vive num mundo que gira de acordo com os símbolos mecânicos e matemáticos das horas marcadas pelo relógio. É ele que vai determinar seus movimentos e dificultar suas ações. O relógio transformou o tempo, transformando-o de um processo natural em uma mercadoria que pode ser comprada, vendida e medida como um sabonete ou um punhado de passas de uvas. E, pelo simples fato de que, se não houvesse um meio para marcar as horas com cuidado, o capitalismo industrial nunca poderia ter se desenvolvido, nem teria continuado a explorar os trabalhadores, o relógio representa um elemento de ditadura mecânica na vida do homem moderno, mais poderoso do que qualquer outro explorador isolado ou do que qualquer outra máquina. Vale a pena, portanto, traçar o processo histórico através do qual o relógio influenciou o desenvolvimento social da moderna civilização européia.

Na história acontece frequentemente que uma civilização ou uma cultura criem o instrumento que será mais tarde utilizado para destruí-la. Os antigos chineses, por exemplo, inventaram a pólvora, que foi depois aperfeiçoada pelos pesquisadores militares do Ocidente, o que eventualmente levou à destruição da própria civilização chinesa pelos poderosos explosivos utilizados na guerra moderna. Da mesma forma, a suprema realização dos artesãos das cidades medievais da Europa foi a invenção do relógio que, ao provocar uma mudança revolucionária no conceito de tempo, contribuiu materialmente para a morte da Idade Média. Segundo a tradição, o relógio surgiu no século XI como um mecanismo utilizado para fazer com que os sinos dos monastérios tocassem a intervalos regulares. Pela vida regrada que impunham aos seus moradores, os monastérios seriam a instituição que mais se aproximaria, em espírito, às fábricas de nossos dias. O primeiro relógio autenticado, entretanto, só iria aparecer no século XIII e seria apenas a partir do século XIV que os relógios passariam a fazer parte da decoração dos prédios públicos de algumas cidades da Alemanha.
Esses primeiros relógios, que funcionavam com um sistema de pêndulos, não eram muito exatos. A partir do século XIV é que eles passariam a desfrutar de um certo grau de confiabilidade. Na Inglaterra, por exemplo, dizia-se que o relógio de Hampton Court, fabricado em 1510, foi o primeiro instrumento que conseguiu marcar as horas com certa precisão e mesmo assim relativa, já que dispunha apenas do ponteiro das horas. A ideia de medir o tempo em minutos e segundos já havia sido cogitado pelos matemáticos do século XIV. Mas só depois da invenção do pêndulo, em 1657, foi possível obter um grau de precisão que permitisse a inclusão do ponteiro dos minutos, enquanto que o ponteiro dos segundos surgiria apenas no século XVIII. É preciso ressaltar que foi durante esses dois séculos que o capitalismo cresceu de tal modo que teve condições de aproveitar as técnicas da revolução industrial para estabelecer seu domínio econômico sobre a sociedade.
O relógio, como observou Lewis Mumford, é a máquina mais importante da Idade da Máquina, pela enorme influencia que exerceu sobre a vida profissional e os hábitos do homem. Tecnicamente, foi ele a primeira máquina que conseguiu ter alguma importância na vida do homem. Antes do seu aparecimento, todas as máquinas que existiam eram de tal natureza que seu funcionamento dependia sempre de uma força externa e instável, tal como a força dos músculos de animais ou do homem, das águas e dos ventos. É verdade que os gregos já haviam inventado alguns mecanismos primitivos, mas estes eram usados, tal como a “máquina a vapor” de Hero para obter “efeitos” sobrenaturais nos templos ou para divertir os tiranos nas cidades do Levante. Mas o relógio foi a primeira máquina automática que conseguiu adquirir uma função social. A fabricação de relógios passou a ser uma atividade na qual os homens aprendiam os elementos da fabricação de outras máquinas, adquirindo conhecimentos técnicos que ajudariam mais tarde a produzir a complicada maquinaria da Revolução Industrial. Socialmente, o relógio teve uma influencia mais radical do que qualquer outro instrumento, pois foi através dele que se tornou possível a regulamentação e arregimentação da vida dos homens, condições necessárias para assegurar o funcionamento de um sistema de trabalho baseado na exploração.
O relógio forneceu os meios através do quais o tempo — algo tão indefinível que nenhuma filosofia conseguira ainda determinar sua natureza — passou a ser medido concretamente em termos mais palpáveis de espaço, dado pela circunstância do mostrador do relógio. O tempo, como duração, perdeu sua importância e os homens começaram a falar em extensões de tempo como se estivessem falando em metros de algodão. Assim o tempo, agora representado por símbolos matemáticos, passou a ser visto como uma mercadoria que podia ser comprada e vendida como qualquer outra mercadoria.
Os novos capitalistas, em particular, bem depressa se tornaram cônscios do novo valor do tempo passando a ver nele — que aqui simbolizava o trabalho dos operários — quase a principal matéria-prima da indústria. “Tempo é dinheiro” era um dos mais importantes slogans da ideologia capitalista e o “marcador de tempo” era um dos mais importantes entre os novos funcionários criados pelo sistema.
Nas primeiras fábricas, os patrões chegavam ao ponto de manipular os relógios ou de fazer com que as sirenes soassem fora de hora para roubar dos trabalhadores um pouquinho dessa nova e valiosa mercadoria. Mais tarde, estas práticas se tornariam menos frequentes, mas a indústria do relógio imporia uma certa regularidade a vida da maior parte dos homens, regularidade que antes só era observada nos monastérios. Na verdade, os homens se transformaram em relógios, a repetir sempre as mesmas ações com uma regularidade que em nada se parecia ao ritmo natural da vida. Tornaram-se, para usar uma expressão vitoriana, “tão regulares quanto os ponteiros de um relógio”. Só no campo, onde a vida natural das plantas, dos animais e dos elementos ainda dominava, é que uma grande parte da população não sucumbiu ao mortal tique-taque da monotonia.
A princípio, esta nova atitude em relação ao tempo, este novo ritmo imposto à vida foi ordenado pelos patrões, senhores dos relógios e os pobres o recebiam a contragosto.

E o escravo da fábrica reagia, nas horas de folga, vivendo na caótica irregularidade que caracterizava os cortiços encharcados de gim dos bairros pobres no início da Era Industrial do século XIX. Os homens se refugiavam no mundo sem hora marcada da bebida ou do culto metodista. Mas aos poucos, a idéia da regularidade espalhou-se, chegando aos operários. A religião e a moral do século XIX desempenharam seu papel, ajudando a proclamar que “perder tempo” era um pecado. A introdução dos relógios, fabricados em massa a partir de 1850, difundiu a preocupação com o tempo entre aqueles que antes se haviam limitado a reagir ao estímulo do despertador ou à sirene da fábrica. Na igreja e na escola, nos escritórios e nas fábricas, a pontualidade passou a ser considerada como a maior das virtudes.

E desta dependência servil ao tempo marcado nos relógios, que se espalhou insidiosamente por todas as classes sociais no século XIX, surgiu a arregimentação desmoralizante que ainda hoje caracteriza a rotina das fábricas.
O homem que não conseguir ajustar-se deve enfrentar a desaprovação da sociedade e a ruína econômica — a menos que abandone tudo, passando a ser um dissidente para o qual o tempo deixa de ser importante. Refeições feitas às pressas, a disputa de todas as manhãs e de todas as tardes por um lugar nos trens e nos ônibus, a tensão de trabalhar obedecendo horários, tudo isso contribui, pelos distúrbios digestivos e nervosos que provoca, para arruinar a saúde e encurtar a vida dos homens.
Nem se poderia afirmar que a imposição financeira da regularidade de horários tenha contribuído a longo prazo, para o aumento da eficiência. Na verdade, a qualidade do produto parece ter até diminuído, pois o empregador que vê o tempo como uma mercadoria pela qual tem de pagar obriga o operário a trabalhar numa velocidade tal que a produção forçosamente será de qualidade inferior. O critério passa a ser de quantidade e não de qualidade e já não há mais o prazer do trabalho pelo trabalho. O operário transforma-se, por sua vez,num especialista em “olhar o relógio”, preocupado apenas em saber quando poderá escapar para gozar as suas escassas e monótonas formas de lazer que a sociedade industrial lhe proporciona; onde ele, para “matar o tempo”, programará tantas atividades mecânicas com tempo marcado, como ir ao cinema, ouvir rádio e ler jornais, quanto permitir o seu salário e o seu cansaço. Só quando se dispõe a viver em harmonia com sua fé ou com sua inteligência é que o homem sem dinheiro consegue deixar de ser um escravo do relógio.
O problema do relógio é em geral semelhante ao da máquina. O tempo mecanizado serve como uma das formas utilizadas para coordenar as atividades numa sociedade altamente desenvolvida, assim como a máquina serve como um dos meios para reduzir ao mínimo todo o trabalho desnecessário. Ambos são válidos pela contribuição que dão no sentido de tornar a vida mais fácil, e devem ser usados na medida em que auxiliam o homem a cooperar eficientemente e a eliminar as tarefas monótonas e a desordem social. Mas não se deve permitir que nenhum deles passe a dominar a vida do homem como hoje acontece.

Agora são os movimentos do relógio que vão determinar o ritmo da vida do ser humano — os homens se tornaram escravos de uma ideia de tempo que eles mesmos criaram e são dominados por esse temor tal como aconteceu com Frankenstein. Numa sociedade livre e saudável, esta dominação do homem por máquinas por ele mesmo construídas chega a ser ridícula, mais ridícula até do que o domínio do homem pelo homem. A contagem do tempo deveria ser relegada à sua verdadeira função, como uma forma de referência e um meio para coordenar as atividades do ser humano, que voltaria a ter uma visão mais equilibrada da vida, já não mais dominada pelos regulamentos impostos pelo tempo e pela adoração ao relógio. A liberdade completa implica a libertação da ditadura das abstrações, tanto quanto a libertação do comando dos homens.
Poder nas organizações
Vídeo animado sobre o poder nas organizações, os elementos correlatos, bases de poder, impactos para o comportamento organizacional e a gestão de pessoas.
Videoaula sobre Cultura Organizacional
Aula sobre Cultura Organizacional, de Administração, que trata da definição de cultura organizacional, níveis fundamentais da cultura, elementos, dimensões e tipologia da cultura organizacional.
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