Arquivo da categoria: Antropologia

Diálogos | Tendências pedagógicas

Tendências pedagógicas são o tema do “Diálogos”. As teorias e as práticas pedagógicas estão em discussão dentro e fora da sala de aula. O “Diálogos” entra nesse tema com a participação do professor Vandeí Pinto da Silva, do Departamento de Didática da Unesp em Marília. O professor explica quais são as tendências pedagógicas de influência política e sua relação com o processo de ensino-aprendizagem. A formação para a vida e a formação omnilateral, proposta por Vandeí em seus estudos, também são abordadas de modo a articular a teoria e a prática pedagógicas.

Pierre Lévy e a Cibercultura

Confira aqui um papo com o Professor Krauss envolvendo os impactos causados pela internet sobre a vida em sociedade, na visão do renomado cientista social: Pierre Lévy!

O imaginário social

Rogério Cavalcanti

O imaginário social é o “modo de ser” da sociedade. É , ao mesmo tempo, algo pronto e a ser feito. É algo instituído e se instituindo. É histórico e social. Todas as sociedades, em todas as épocas, criaram imagens ou representações sobre suas próprias vidas sociais. No entanto, o imaginário, na tradição do pensamento ocidental, quase sempre teve sua importância relegada ao segundo plano no processo de análise das organizações políticas e sociais modernas.

Os pensadores ocidentais tendiam a considerar o imaginário social como um tipo de ilusão, quimera, máscara, enfim, alguma coisa que não seria real e que, por isso, não poderia ter nenhuma atuação efetiva na prática do “verdadeiro” mundo social.

Nesta perspectiva, Baczko (1985: 297-9) afirma que esses teóricos abordavam a questão do imaginário social como se ele fosse alguma coisa fantástica, que serviria simplesmente para encobrir aquelas que seriam consideradas as “verdadeiras relações sociais”, estas ocorridas exclusivamente no mundo material. A vida material era considerada como a “única vida real” e o imaginário seria utilizado apenas para ornamentar ou falsear as relações sociais surgidas neste contexto. Tais pensadores buscavam enxergar o sujeito por trás do imaginário, desnudá-lo e desmistifica-lo. Os agentes sociais eram captados sem suas “roupagens”, suas expectativas e suas representações simbólicas. A segunda metade do século XIX foi, por excelência, a época desse culto excessivo à racionalidade científica. Não se pensava que o imaginário social pudesse ter alguma relação mais estreita com a vida social em suas várias dimensões.

Mas o imaginário, no pensamento político e social contemporâneo, toma um outro lugar. Ele passa a ser visto como um eixo orientador para a vida social e individual, como elemento constitutivo do político, do cultural, conferindo sentido às ações sociais. Desse modo, o imaginário surge como sendo a própria essência da sociedade, a força criadora e mantenedora da ordem social, assim como o seu próprio fator de transformação, enfim, o “motor histórico social”.

O imaginário social não é simplesmente, segundo Castoriadis (1986), a imagem de alguma coisa. É uma “criação incessante e essencialmente indeterminada (social-histórica e psíquica) de figuras / formas / imagens, a partir das quais somente é possível falar-se de ‘alguma coisa’. Aquilo que denominamos ‘realidade’ e ‘racionalidade’ são seus produtos” (p.13).

Foto por Olga Lioncat em Pexels.com

Nesta visão, todo pensamento acerca da sociedade e da história pertencem, em si mesmo, à sociedade e à história. Todo pensamento, independentemente de qual seja o seu objeto, é apenas uma forma do “fazer” e do “ser” social e histórico. Isto é; o pensamento (a imaginação) é uma forma de entendimento do mundo, de reflexão e da possibilidade que ele se transforme a partir da emergência de novas formas de pensamento, de novas formas de imaginário que se fundem no meio social.

O pensamento racional, o processo de “elucidação”, é o trabalho que o homem utiliza para refletir sobre o que faz e de saber o que pensa. A sociedade é, então, uma criação infinita de pensamentos, de imagens sobre o “fazer” e o “dizer” (pensar) dos homens. O “fazer” e o “dizer” se institucionalizam e se transformam através da história. A partir do momento em que uma forma de pensamento / imaginação se institui na sociedade e, ao mesmo tempo, institui um modo de “fazer” e “dizer” do social, as suas próprias incoerências ou resistências possibilitam a criação de novas formas de pensamento, do “fazer” e do “valer” sócio-histórico. Tais formas são avaliadas e discutidas por outros critérios que não mais os anteriormente instituídos.

Um imaginário ou outro, assim como a fusão deles, são momentos e formas de auto criação da sociedade. De acordo com Castoriadis (1986), o mundo social é a todo momento constituído e articulado em torno de um determinado sistema de significações simbólicas, o que o autor denominou de “imaginário efetivo” ou o “imaginado”. O simbolismo institucional e a funcionalidade do social só podem ser compreendidos apelando-se para uma análise da rede de relações simbólicas existentes num dado contexto social histórico.

O papel das significações imaginárias é o de fornecer uma identidade para o social, dar uma resposta, uma explicação coerente para aquilo que praticamente todo mundo se pergunta: Quem somos e o que queremos?

Ao responder essas perguntas é que uma sociedade se constitui. E as perguntas, assim como as respostas surgem durante o processo do “fazer” de cada sociedade, ou seja, em sua atividade histórica, política e cultural. Dito de outra maneira, o papel das significações imaginárias é o de fornecer respostas sobre nós mesmos, enquanto uma coletividade. Respostas que não podem ser fornecidas nem pela “realidade” e nem pela “racionalidade”, a não ser num sentido muito específico. O “ser” da coletividade é dado a partir do momento em que cada um se define e é definido pelos outros em relação a um “nós”. Mas o que é uma coletividade? É, antes de tudo, um sistema de símbolos, as suas próprias insígnias de existência. Tal significante remete a significados de qualidade e de propriedade sociais. E um significado é nada mais que um nome. Não é “real” e nem “racional”, mas, imaginário. Esse significado se constitui, adquire peso e se materializa na instituição que tem a função de colocar a sociedade como existente, de responder a pergunta de seu “ser” e de sua identidade, referindo-os à símbolos que a unem a uma outra “realidade”.

O imaginário social, na visão de Castoriadis (1986), tem um efeito real sobre a sociedade. A imagem sobre o mundo social é, ao mesmo tempo, a imagem de quem pensa e age no mundo; ou como frisa o autor: “Um sistema de significações determina escolhas que valorizam e desvalorizam, estruturam e hierarquizam um conjunto cruzado de objetos e de faltas correspondentes, no qual pode-se ‘ler’ mais facilmente do que em qualquer outro, essa coisa tão incerta como incontestável que é a orientação de uma sociedade” (p.81).

BACZCKO, Bronislaw. Imaginação social. In: Enciclopédia Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional, Casa da Moeda, v.05, 1985.

CASTORIADIS,Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

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A ordem social e as representações simbólicas

  • Primeiras letras de um jovem estudante da graduação (UFMG, 1993)

Rogério Cavalcanti

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Os indivíduos desfrutam de uma dependência mútua que é responsável pela união da coletividade. (Foto por Shinobu em Pexels.com)

A ordem social, de acordo com Durkheim (1977), pode ser explicada pela emergência de uma consciência coletiva, geradora de solidariedade, que é exterior aos indivíduos e que surge como produto da interação entre eles, ou seja, no processo de socialização. A ordem social é dada por meio de regras ou preceitos morais que adquirem exterioridade frente a cada indivíduo, agindo como fator de coação. Isso ocorre porque, na sociedade, os indivíduos desfrutam de uma dependência mútua que é responsável pela união da coletividade. Essa dependência resulta da divisão do trabalho social, gerando “solidariedade orgânica”, onde cada tarefa exercida por um indivíduo ou grupo tem que se realizar corretamente para que o todo possa funcionar direito. Para que isso ocorra, o indivíduo precisa ser “freado” pela moral que, em resumo, é a própria sociedade.

Seguindo nesta perspectiva, o sociólogo francês Marcel Mauss (1974), sobrinho de Durkheim, estabelece uma ligação direta, no homem, entre o físico, o psicológico e o social. Afirma que, em grande número de sociedades tradicionais, existe um temor da morte que é de origem social e que é capaz de originar danos tanto na consciência, quanto no corpo dos indivíduos, podendo até acarretar sua morte num curto prazo de tempo e sem nenhuma lesão aparente ou conhecida. O indivíduo, nesta ótica, torna-se mais vulnerável à morte na medida em que passa a temê-la de forma sistemática ou se, então, tenha fixado tal ideia em sua consciência, perturbando sua vida “normal” na sociedade.  Com efeito, pode-se dizer que a relação existente entre a organização social e as representações simbólicas, segundo Mauss, consiste no fato de que os indivíduos são compelidos pela sociedade, por meio de mecanismos de coerção, a acatarem qualquer decisão que seja tomada em seu interior como legítima ou verdadeira.

A estrutura simbólica erguida numa dada sociedade atua de forma a determinar que tipos de comportamento os indivíduos, membros dessa sociedade, devem ou não considerar como válidos ou eficazes para o desenvolvimento social. É a estrutura de símbolos que guia o comportamento social, pressionando os indivíduos a acatarem tal orientação. É como algo imposto “de fora” aos indivíduos que o significado simbólico ou os sentidos são percebidos nesta visão, na qual os indivíduos não têm muita escolha frente ao poder da sociedade sobre seus atos e pensamentos, sendo estes determinados por ela. As ideias (os símbolos) elaborados no seio da sociedade mantêm-se e reproduzem-se no indivíduo por meio de uma pressão permanente de seu grupo social específico. As estruturas simbólicas são responsáveis diretas pela construção e manutenção da ordem social, num determinado contexto, onde os indivíduos não teriam como “escapar” desta determinação que lhe é imposta.

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Os símbolos aparecem como orientadores da conduta humana (Foto por Pixabay em Pexels.com)

Ao contrário de Mauss (1974), Lévi-Strauss (1985) não aceita a determinação social do pensamento, sendo o mesmo, para este autor, fruto da própria natureza orgânica do homem, ou seja, algo inerente à condição humana. Para este autor, a organização social é permeada por estruturas simbólicas, mas os símbolos ou as representações simbólicas atuam de forma efetiva sobre o comportamento do indivíduo a partir do momento em que este acredita no símbolo e no que ele representa, tanto para o indivíduo quanto para seu grupo. Os símbolos também aparecem, nessa perspectiva, como orientadores da conduta humana, sendo que tal orientação não seria algo imposto, como na visão de Mauss, mas sim uma solução eficaz produzida pelos indivíduos para que possam resolver os seus conflitos no âmbito da sociedade. A relação entre a ordem social e as representações simbólicas seria uma relação de apoio mútuo, de troca, onde todos os elementos culturais estariam integrados e interagindo de forma harmônica para a efetivação do desenvolvimento social. As representações simbólicas reafirmam a ordem na sociedade que, por sua vez, mantêm intacta as instituições sociais por ela criada. Os símbolos conferem sentido à ordem social, sendo que esse mesmo sentido encontra-se abrigado no inconsciente humano, que não serve apenas como refúgio das particularidades individuais. O inconsciente individual é possuidor de uma função simbólica que se exerce segundo “leis universais” e que se reduz ao conjunto dessas mesmas leis, isto é, às mesmas estruturas e ao conjunto dessas estruturas.

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As representações simbólicas dependem dos valores individuais dos atores envolvidos na ação. (Foto por fotografierende em Pexels.com)

Clifford Geertz (1976), representante da antropologia interpretativa americana, afirma que uma dada cultura não pode simplesmente ser explicada ou reduzida a um nível estrutural e a conceitos abstratos, mas deve-se levar em conta o contexto onde uma determinada ação social acontece. Dessa forma, torna-se possível expressar o que uma determinada ação simbólica tem a dizer sobre ela mesma e, ao mesmo tempo, preservá-la. Ou seja, nesta perspectiva, a organização social origina-se e perpetua-se (ou transforma-se) a partir não apenas da estrutura de símbolos existentes na sociedade, mas também pelo valor agregado à ação pelos indivíduos, num determinado momento de suas vidas. Portanto, entender o papel da cultura na vida do homem significa não a busca por “leis universais” que regeriam o comportamento humano, mas a exposição de um possível significado que um ato tem para a própria cultura, no contexto social onde ele é realizado. Tem-se então, para Geertz (1976), uma explicação/interpretação mais realista e menos abstrata de um sistema cultural. Nessa lógica, a relação que se evidencia entre a ordem social e as representações simbólicas é que a primeira é apenas “virtual”, ou seja, o significado da ação não é de determinação estrutural, mas ocorre durante o momento da própria ação. Sendo a ordem social produzida no momento da ação, tem-se que as representações simbólicas não são fixas, imutáveis, mas sim flexíveis e dependentes dos valores individuais dos atores envolvidos na ação. Em suma, tanto a ordem social, quanto as representações simbólicas podem variar, de acordo com o contexto social específico em que se encontra determinado grupo social.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

DURKHEIM, E. A divisão do Trabalho social. Lisboa: Presença; Brasília: Martins Fontes, v.2, 1977.

GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1976.

LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1985.

MAUSS, M. Sociologia e antropologia. São Paulo: EPU, 1974.

Processo de Socialização – Instituições Sociais

Este vídeo trata  das instituições sociais, sua definição e seu importante papel no processo de socialização.