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O conceito moderno de tempo ou “a ditadura do relógio”

Rogério Cavalcanti

O texto “A ditadura do relógio” de George Woodcock *, oferece uma análise profunda e crítica sobre o impacto do relógio e do conceito moderno de tempo na sociedade ocidental. Woodcock argumenta que a obsessão com a medição precisa do tempo é um fenômeno relativamente recente na história humana, que tem raízes profundas na ascensão do capitalismo industrial e na consequente transformação do tempo em uma mercadoria. A seguir, alguns pontos-chave e análise do texto:

* WOODCOCK, George. A ditadura do relógio. In: ___. Os grandes escritos anarquistas. Porto Alegre, L&PM Editores, 1998. p. 122.

A Transformação do Tempo

  • Contraste Histórico: Woodcock destaca o contraste entre a percepção cíclica do tempo nas sociedades antigas e tradicionais, onde era marcado pelos ritmos naturais, e a visão linear e quantificada do tempo na sociedade ocidental moderna, dominada pelo relógio.
  • Instrumento de Controle: O relógio é descrito como uma ferramenta que permitiu uma organização e exploração laboral mais eficiente, sendo essencial para o desenvolvimento e a manutenção do capitalismo industrial.

Impacto Social e Econômico

  • Regulamentação da Vida: O autor observa como o relógio contribuiu para a regulamentação da vida cotidiana, impondo uma rigidez que era anteriormente desconhecida, e transformando as pessoas em entidades tão previsíveis e regulares quanto a máquina que as governa.
  • Capitalismo e a Mercantilização do Tempo: Woodcock argumenta que o capitalismo se apoderou da nova concepção de tempo, tratando-o como uma mercadoria valiosa, com o famoso adágio “tempo é dinheiro”, reforçando a ideia de que o tempo não utilizado para o trabalho é desperdiçado.

Consequências Culturais e Psicológicas

  • Desumanização e Monotonia: A estrutura imposta pelo relógio e a subsequente monotonia da vida industrial são vistas como desumanizadoras, levando a uma existência que valoriza a quantidade em detrimento da qualidade, e que limita severamente o potencial humano para a criatividade e o prazer no trabalho.
  • Resistência e Alternativas: O texto também aborda as formas de resistência e rejeição a essa dominação, sugerindo que uma vida equilibrada e plena requer a libertação da tirania do relógio e a recuperação de uma relação mais harmoniosa com o tempo.

Woodcock propõe uma reflexão sobre a necessidade de reavaliar nossa relação com o tempo e as máquinas. Ele argumenta que, embora o tempo mecanizado e as máquinas tenham seu lugar na sociedade moderna para coordenar atividades e reduzir o trabalho monótono, eles não deveriam dominar nossa existência. A verdadeira liberdade implica uma libertação das abstrações dominantes, como o tempo medido mecanicamente, e o retorno a uma percepção de vida mais balanceada e menos regulada por abstrações.

Em resumo, “A Ditadura do Relógio” é um poderoso lembrete da importância de questionar e, possivelmente, redefinir nossa relação com o tempo, uma construção social que se tornou uma força dominante e muitas vezes opressiva em nossas vidas. Woodcock nos convida a imaginar uma sociedade onde o tempo serve à humanidade, não o contrário, promovendo uma existência mais autêntica e libertadora.

Leia o texto na íntegra:

A Ditadura do Relógio

Por George Woodcock
(in A Rejeição da Política, 1972)

Não há nada que diferencie tanto a sociedade Ocidental de nossos dias das sociedades mais antigas da Europa e do Oriente do que o conceito de tempo. Tanto para os antigos gregos e chineses quanto para os nômades árabes ou para o peão mexicano de hoje, o tempo é representado pelos processos cíclicos da natureza, pela sucessão dos dias e das noites, pela passagem das estações. Os nômades e os fazendeiros costumavam medir – e ainda hoje o fazem – seu dia do amanhecer até o crepúsculo e os anos em termos de tempo de plantar e de colher, das folhas que caem e do gelo derretendo nos lagos e rios. O homem do campo trabalhava em harmonia com os elementos, como um artesão, durante tanto tempo quanto julgasse necessário.

O tempo era visto como um processo natural de mudança e os homens não se preocupavam em medi-lo com exatidão. Por essa razão, civilizações que eram altamente desenvolvidas sob outros aspectos dispunham de meios bastante primitivos para medir o tempo: a ampulheta cheia que escorria, o relógio de sol inútil num dia sombrio, a vela ou lâmpada onde o resto de óleo ou cera que permanecia sem queimar indicava as horas. Todos esses dispositivos forneciam medidas aproximadas de tempo e tornavam-se muitas vezes falhos pelas condições do clima ou pela inabilidade daqueles que os manipulavam. Em nenhum lugar do mundo antigo ou da Idade Media, havia mais do que uma pequeníssima minoria de homens que se preocupassem realmente em medir o tempo em termos de exatidão matemática.

O homem ocidental civilizado, entretanto, vive num mundo que gira de acordo com os símbolos mecânicos e matemáticos das horas marcadas pelo relógio. É ele que vai determinar seus movimentos e dificultar suas ações. O relógio transformou o tempo, transformando-o de um processo natural em uma mercadoria que pode ser comprada, vendida e medida como um sabonete ou um punhado de passas de uvas. E, pelo simples fato de que, se não houvesse um meio para marcar as horas com cuidado, o capitalismo industrial nunca poderia ter se desenvolvido, nem teria continuado a explorar os trabalhadores, o relógio representa um elemento de ditadura mecânica na vida do homem moderno, mais poderoso do que qualquer outro explorador isolado ou do que qualquer outra máquina. Vale a pena, portanto, traçar o processo histórico através do qual o relógio influenciou o desenvolvimento social da moderna civilização européia.

Foto por Artem Saranin em Pexels.com

Na história acontece frequentemente que uma civilização ou uma cultura criem o instrumento que será mais tarde utilizado para destruí-la. Os antigos chineses, por exemplo, inventaram a pólvora, que foi depois aperfeiçoada pelos pesquisadores militares do Ocidente, o que eventualmente levou à destruição da própria civilização chinesa pelos poderosos explosivos utilizados na guerra moderna. Da mesma forma, a suprema realização dos artesãos das cidades medievais da Europa foi a invenção do relógio que, ao provocar uma mudança revolucionária no conceito de tempo, contribuiu materialmente para a morte da Idade Média. Segundo a tradição, o relógio surgiu no século XI como um mecanismo utilizado para fazer com que os sinos dos monastérios tocassem a intervalos regulares. Pela vida regrada que impunham aos seus moradores, os monastérios seriam a instituição que mais se aproximaria, em espírito, às fábricas de nossos dias. O primeiro relógio autenticado, entretanto, só iria aparecer no século XIII e seria apenas a partir do século XIV que os relógios passariam a fazer parte da decoração dos prédios públicos de algumas cidades da Alemanha.

Esses primeiros relógios, que funcionavam com um sistema de pêndulos, não eram muito exatos. A partir do século XIV é que eles passariam a desfrutar de um certo grau de confiabilidade. Na Inglaterra, por exemplo, dizia-se que o relógio de Hampton Court, fabricado em 1510, foi o primeiro instrumento que conseguiu marcar as horas com certa precisão e mesmo assim relativa, já que dispunha apenas do ponteiro das horas. A ideia de medir o tempo em minutos e segundos já havia sido cogitado pelos matemáticos do século XIV. Mas só depois da invenção do pêndulo, em 1657, foi possível obter um grau de precisão que permitisse a inclusão do ponteiro dos minutos, enquanto que o ponteiro dos segundos surgiria apenas no século XVIII. É preciso ressaltar que foi durante esses dois séculos que o capitalismo cresceu de tal modo que teve condições de aproveitar as técnicas da revolução industrial para estabelecer seu domínio econômico sobre a sociedade.

O relógio, como observou Lewis Mumford, é a máquina mais importante da Idade da Máquina, pela enorme influencia que exerceu sobre a vida profissional e os hábitos do homem. Tecnicamente, foi ele a primeira máquina que conseguiu ter alguma importância na vida do homem. Antes do seu aparecimento, todas as máquinas que existiam eram de tal natureza que seu funcionamento dependia sempre de uma força externa e instável, tal como a força dos músculos de animais ou do homem, das águas e dos ventos. É verdade que os gregos já haviam inventado alguns mecanismos primitivos, mas estes eram usados, tal como a “máquina a vapor” de Hero para obter “efeitos” sobrenaturais nos templos ou para divertir os tiranos nas cidades do Levante. Mas o relógio foi a primeira máquina automática que conseguiu adquirir uma função social. A fabricação de relógios passou a ser uma atividade na qual os homens aprendiam os elementos da fabricação de outras máquinas, adquirindo conhecimentos técnicos que ajudariam mais tarde a produzir a complicada maquinaria da Revolução Industrial. Socialmente, o relógio teve uma influencia mais radical do que qualquer outro instrumento, pois foi através dele que se tornou possível a regulamentação e arregimentação da vida dos homens, condições necessárias para assegurar o funcionamento de um sistema de trabalho baseado na exploração.

O relógio forneceu os meios através do quais o tempo — algo tão indefinível que nenhuma filosofia conseguira ainda determinar sua natureza — passou a ser medido concretamente em termos mais palpáveis de espaço, dado pela circunstância do mostrador do relógio. O tempo, como duração, perdeu sua importância e os homens começaram a falar em extensões de tempo como se estivessem falando em metros de algodão. Assim o tempo, agora representado por símbolos matemáticos, passou a ser visto como uma mercadoria que podia ser comprada e vendida como qualquer outra mercadoria.

Os novos capitalistas, em particular, bem depressa se tornaram cônscios do novo valor do tempo passando a ver nele — que aqui simbolizava o trabalho dos operários — quase a principal matéria-prima da indústria. “Tempo é dinheiro” era um dos mais importantes slogans da ideologia capitalista e o “marcador de tempo” era um dos mais importantes entre os novos funcionários criados pelo sistema.

Nas primeiras fábricas, os patrões chegavam ao ponto de manipular os relógios ou de fazer com que as sirenes soassem fora de hora para roubar dos trabalhadores um pouquinho dessa nova e valiosa mercadoria. Mais tarde, estas práticas se tornariam menos frequentes, mas a indústria do relógio imporia uma certa regularidade a vida da maior parte dos homens, regularidade que antes só era observada nos monastérios. Na verdade, os homens se transformaram em relógios, a repetir sempre as mesmas ações com uma regularidade que em nada se parecia ao ritmo natural da vida. Tornaram-se, para usar uma expressão vitoriana, “tão regulares quanto os ponteiros de um relógio”. Só no campo, onde a vida natural das plantas, dos animais e dos elementos ainda dominava, é que uma grande parte da população não sucumbiu ao mortal tique-taque da monotonia.

A princípio, esta nova atitude em relação ao tempo, este novo ritmo imposto à vida foi ordenado pelos patrões, senhores dos relógios e os pobres o recebiam a contragosto.

E o escravo da fábrica reagia, nas horas de folga, vivendo na caótica irregularidade que caracterizava os cortiços encharcados de gim dos bairros pobres no início da Era Industrial do século XIX. Os homens se refugiavam no mundo sem hora marcada da bebida ou do culto metodista. Mas aos poucos, a idéia da regularidade espalhou-se, chegando aos operários. A religião e a moral do século XIX desempenharam seu papel, ajudando a proclamar que “perder tempo” era um pecado. A introdução dos relógios, fabricados em massa a partir de 1850, difundiu a preocupação com o tempo entre aqueles que antes se haviam limitado a reagir ao estímulo do despertador ou à sirene da fábrica. Na igreja e na escola, nos escritórios e nas fábricas, a pontualidade passou a ser considerada como a maior das virtudes.

E desta dependência servil ao tempo marcado nos relógios, que se espalhou insidiosamente por todas as classes sociais no século XIX, surgiu a arregimentação desmoralizante que ainda hoje caracteriza a rotina das fábricas.

O homem que não conseguir ajustar-se deve enfrentar a desaprovação da sociedade e a ruína econômica — a menos que abandone tudo, passando a ser um dissidente para o qual o tempo deixa de ser importante. Refeições feitas às pressas, a disputa de todas as manhãs e de todas as tardes por um lugar nos trens e nos ônibus, a tensão de trabalhar obedecendo horários, tudo isso contribui, pelos distúrbios digestivos e nervosos que provoca, para arruinar a saúde e encurtar a vida dos homens.

Nem se poderia afirmar que a imposição financeira da regularidade de horários tenha contribuído a longo prazo, para o aumento da eficiência. Na verdade, a qualidade do produto parece ter até diminuído, pois o empregador que vê o tempo como uma mercadoria pela qual tem de pagar obriga o operário a trabalhar numa velocidade tal que a produção forçosamente será de qualidade inferior. O critério passa a ser de quantidade e não de qualidade e já não há mais o prazer do trabalho pelo trabalho. O operário transforma-se, por sua vez,num especialista em “olhar o relógio”, preocupado apenas em saber quando poderá escapar para gozar as suas escassas e monótonas formas de lazer que a sociedade industrial lhe proporciona; onde ele, para “matar o tempo”, programará tantas atividades mecânicas com tempo marcado, como ir ao cinema, ouvir rádio e ler jornais, quanto permitir o seu salário e o seu cansaço. Só quando se dispõe a viver em harmonia com sua fé ou com sua inteligência é que o homem sem dinheiro consegue deixar de ser um escravo do relógio.

O problema do relógio é em geral semelhante ao da máquina. O tempo mecanizado serve como uma das formas utilizadas para coordenar as atividades numa sociedade altamente desenvolvida, assim como a máquina serve como um dos meios para reduzir ao mínimo todo o trabalho desnecessário. Ambos são válidos pela contribuição que dão no sentido de tornar a vida mais fácil, e devem ser usados na medida em que auxiliam o homem a cooperar eficientemente e a eliminar as tarefas monótonas e a desordem social. Mas não se deve permitir que nenhum deles passe a dominar a vida do homem como hoje acontece.

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Agora são os movimentos do relógio que vão determinar o ritmo da vida do ser humano — os homens se tornaram escravos de uma ideia de tempo que eles mesmos criaram e são dominados por esse temor tal como aconteceu com Frankenstein. Numa sociedade livre e saudável, esta dominação do homem por máquinas por ele mesmo construídas chega a ser ridícula, mais ridícula até do que o domínio do homem pelo homem. A contagem do tempo deveria ser relegada à sua verdadeira função, como uma forma de referência e um meio para coordenar as atividades do ser humano, que voltaria a ter uma visão mais equilibrada da vida, já não mais dominada pelos regulamentos impostos pelo tempo e pela adoração ao relógio. A liberdade completa implica a libertação da ditadura das abstrações, tanto quanto a libertação do comando dos homens.

Poder nas organizações

Vídeo animado sobre o poder nas organizações, os elementos correlatos, bases de poder, impactos para o comportamento organizacional e a gestão de pessoas.

Os segredos dos donos de redes sociais para viciar e manipular, segundo o ‘Dilema das Redes’

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A ordem social e as representações simbólicas

  • Primeiras letras de um jovem estudante da graduação (UFMG, 1993)

Rogério Cavalcanti

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Os indivíduos desfrutam de uma dependência mútua que é responsável pela união da coletividade. (Foto por Shinobu em Pexels.com)

A ordem social, de acordo com Durkheim (1977), pode ser explicada pela emergência de uma consciência coletiva, geradora de solidariedade, que é exterior aos indivíduos e que surge como produto da interação entre eles, ou seja, no processo de socialização. A ordem social é dada por meio de regras ou preceitos morais que adquirem exterioridade frente a cada indivíduo, agindo como fator de coação. Isso ocorre porque, na sociedade, os indivíduos desfrutam de uma dependência mútua que é responsável pela união da coletividade. Essa dependência resulta da divisão do trabalho social, gerando “solidariedade orgânica”, onde cada tarefa exercida por um indivíduo ou grupo tem que se realizar corretamente para que o todo possa funcionar direito. Para que isso ocorra, o indivíduo precisa ser “freado” pela moral que, em resumo, é a própria sociedade.

Seguindo nesta perspectiva, o sociólogo francês Marcel Mauss (1974), sobrinho de Durkheim, estabelece uma ligação direta, no homem, entre o físico, o psicológico e o social. Afirma que, em grande número de sociedades tradicionais, existe um temor da morte que é de origem social e que é capaz de originar danos tanto na consciência, quanto no corpo dos indivíduos, podendo até acarretar sua morte num curto prazo de tempo e sem nenhuma lesão aparente ou conhecida. O indivíduo, nesta ótica, torna-se mais vulnerável à morte na medida em que passa a temê-la de forma sistemática ou se, então, tenha fixado tal ideia em sua consciência, perturbando sua vida “normal” na sociedade.  Com efeito, pode-se dizer que a relação existente entre a organização social e as representações simbólicas, segundo Mauss, consiste no fato de que os indivíduos são compelidos pela sociedade, por meio de mecanismos de coerção, a acatarem qualquer decisão que seja tomada em seu interior como legítima ou verdadeira.

A estrutura simbólica erguida numa dada sociedade atua de forma a determinar que tipos de comportamento os indivíduos, membros dessa sociedade, devem ou não considerar como válidos ou eficazes para o desenvolvimento social. É a estrutura de símbolos que guia o comportamento social, pressionando os indivíduos a acatarem tal orientação. É como algo imposto “de fora” aos indivíduos que o significado simbólico ou os sentidos são percebidos nesta visão, na qual os indivíduos não têm muita escolha frente ao poder da sociedade sobre seus atos e pensamentos, sendo estes determinados por ela. As ideias (os símbolos) elaborados no seio da sociedade mantêm-se e reproduzem-se no indivíduo por meio de uma pressão permanente de seu grupo social específico. As estruturas simbólicas são responsáveis diretas pela construção e manutenção da ordem social, num determinado contexto, onde os indivíduos não teriam como “escapar” desta determinação que lhe é imposta.

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Os símbolos aparecem como orientadores da conduta humana (Foto por Pixabay em Pexels.com)

Ao contrário de Mauss (1974), Lévi-Strauss (1985) não aceita a determinação social do pensamento, sendo o mesmo, para este autor, fruto da própria natureza orgânica do homem, ou seja, algo inerente à condição humana. Para este autor, a organização social é permeada por estruturas simbólicas, mas os símbolos ou as representações simbólicas atuam de forma efetiva sobre o comportamento do indivíduo a partir do momento em que este acredita no símbolo e no que ele representa, tanto para o indivíduo quanto para seu grupo. Os símbolos também aparecem, nessa perspectiva, como orientadores da conduta humana, sendo que tal orientação não seria algo imposto, como na visão de Mauss, mas sim uma solução eficaz produzida pelos indivíduos para que possam resolver os seus conflitos no âmbito da sociedade. A relação entre a ordem social e as representações simbólicas seria uma relação de apoio mútuo, de troca, onde todos os elementos culturais estariam integrados e interagindo de forma harmônica para a efetivação do desenvolvimento social. As representações simbólicas reafirmam a ordem na sociedade que, por sua vez, mantêm intacta as instituições sociais por ela criada. Os símbolos conferem sentido à ordem social, sendo que esse mesmo sentido encontra-se abrigado no inconsciente humano, que não serve apenas como refúgio das particularidades individuais. O inconsciente individual é possuidor de uma função simbólica que se exerce segundo “leis universais” e que se reduz ao conjunto dessas mesmas leis, isto é, às mesmas estruturas e ao conjunto dessas estruturas.

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As representações simbólicas dependem dos valores individuais dos atores envolvidos na ação. (Foto por fotografierende em Pexels.com)

Clifford Geertz (1976), representante da antropologia interpretativa americana, afirma que uma dada cultura não pode simplesmente ser explicada ou reduzida a um nível estrutural e a conceitos abstratos, mas deve-se levar em conta o contexto onde uma determinada ação social acontece. Dessa forma, torna-se possível expressar o que uma determinada ação simbólica tem a dizer sobre ela mesma e, ao mesmo tempo, preservá-la. Ou seja, nesta perspectiva, a organização social origina-se e perpetua-se (ou transforma-se) a partir não apenas da estrutura de símbolos existentes na sociedade, mas também pelo valor agregado à ação pelos indivíduos, num determinado momento de suas vidas. Portanto, entender o papel da cultura na vida do homem significa não a busca por “leis universais” que regeriam o comportamento humano, mas a exposição de um possível significado que um ato tem para a própria cultura, no contexto social onde ele é realizado. Tem-se então, para Geertz (1976), uma explicação/interpretação mais realista e menos abstrata de um sistema cultural. Nessa lógica, a relação que se evidencia entre a ordem social e as representações simbólicas é que a primeira é apenas “virtual”, ou seja, o significado da ação não é de determinação estrutural, mas ocorre durante o momento da própria ação. Sendo a ordem social produzida no momento da ação, tem-se que as representações simbólicas não são fixas, imutáveis, mas sim flexíveis e dependentes dos valores individuais dos atores envolvidos na ação. Em suma, tanto a ordem social, quanto as representações simbólicas podem variar, de acordo com o contexto social específico em que se encontra determinado grupo social.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

DURKHEIM, E. A divisão do Trabalho social. Lisboa: Presença; Brasília: Martins Fontes, v.2, 1977.

GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1976.

LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1985.

MAUSS, M. Sociologia e antropologia. São Paulo: EPU, 1974.

Videoaula sobre crime e desvio social

O vídeo intitulado “Crime e Desvio” faz parte de uma série de vídeos da disciplina Fundamentos da Análise Sociológica, a qual é ministrada pelo professor Jorge Alexandre Neves da FAFICH- Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG.

O poder em Michel Foucault

Michel Foucault foi um filósofo, historiador das ideias, teórico social, filólogo e crítico literário. Suas teorias abordam a relação entre poder e conhecimento e como eles são usados ​​como uma forma de controle social por meio de instituições sociais. No entanto, ele não buscou apresentar uma Teoria do PODER, mas apontou caminhos para identificar de que forma os sujeitos atuam sobre os outros sujeitos.

Videoaula sobre Max Weber: Teoria da Burocracia

Veja como Max Weber entende o conceito de burocracia, compreenda todas as características que envolvem esse fenômeno presente nos Estados contemporâneos.

Videoaula sobre Max Weber – Burocracia

Texto do Professor Anderson Pinho (Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=trkDwqsRiNI) Max Weber, em relação ao mundo moderno (científico), demonstrava um certo pessimismo e não encontrava saída para os problemas culturais que nele surgiam, assim como para a “prisão” na qual o homem se encontrava por causa do sistema capitalista. Antes da sociedade moderna, a religião era o que motivava a vida das pessoas e dava sentido para suas ações, inclusive ao trabalho. Mas com o pensamento científico tomando espaço como referencial de mundo, certos apegos culturais – crenças, formas de agir – vindos da religiosidade foram confrontados. O problema que Max Weber via era que a ciência não poderia ocupar por completo o lugar que a religião tinha ao dar sentido ao mundo. Se, em contextos históricos anteriores, o trabalho poderia ser motivado pela religião, como foi explicado anteriormente, e agora não é mais, devido à racionalização do mundo, por que, então, o homem se prende tanto ao trabalho? Porque o sistema capitalista – da produção industrial em série e da exploração da mão-de-obra – deixou o homem ocidental sem uma “válvula de escape”. Preso, agora ele vive do e para o trabalho. Tanto em seu grande tratado Economia e sociedade como nos Escritos de sociologia da religião, Max Weber estudou a importância social das formas religiosas de vida. O ponto de partida da história religiosa da humanidade é um mundo repleto de sagrado e, em nossa época, o ponto de chegada é aquilo que Max Weber chama de desencanto do mundo: “A ciência nos faz ver na realidade externa unicamente forças cegas, que podemos dispor a nosso serviço, mas não pode fazer sobreviver nada dos mitos e da divindade com que o pensamento dos primitivos povoava o universo. Nesse mundo desprovido de encantos, as sociedades humanas evoluem para uma organização mais racional e sempre mais burocrática”.