Arquivo da categoria: Cultura

Castells e o Capitalismo Informacional

Chegou a hora de bater um papo com o Professor Krauss sobre um dos mais importantes pensadores contemporâneos: Manuel Castells. Sociólogo espanhol que analisa, entre outros assuntos, os impactos das novas tecnologias da informação e comunicação sobre a vida humana.

Pierre Lévy e a Cibercultura

Confira aqui um papo com o Professor Krauss envolvendo os impactos causados pela internet sobre a vida em sociedade, na visão do renomado cientista social: Pierre Lévy!

O imaginário social

Rogério Cavalcanti

O imaginário social é o “modo de ser” da sociedade. É , ao mesmo tempo, algo pronto e a ser feito. É algo instituído e se instituindo. É histórico e social. Todas as sociedades, em todas as épocas, criaram imagens ou representações sobre suas próprias vidas sociais. No entanto, o imaginário, na tradição do pensamento ocidental, quase sempre teve sua importância relegada ao segundo plano no processo de análise das organizações políticas e sociais modernas.

Os teóricos tendiam a considerar o imaginário como um tipo de ilusão, quimera, máscara, enfim, alguma coisa que não seria real e que, por isso, não poderia ter uma atuação efetiva na prática do “verdadeiro” mundo social.

Nesta perspectiva, Baczko (1985: 297-9) afirma que esses teóricos abordavam a questão do imaginário social como se ele fosse alguma coisa fantástica, que serviria simplesmente para encobrir aquelas que seriam consideradas as “verdadeiras relações sociais”, estas ocorridas exclusivamente no mundo material. A vida material era considerada como a “única vida real” e o imaginário seria utilizado apenas para ornamentar ou falsear as relações sociais surgidas neste contexto. Tais pensadores buscavam enxergar o sujeito por trás do imaginário, desnudá-lo e desmistifica-lo. Os agentes sociais eram captados sem suas “roupagens”, suas expectativas e suas representações simbólicas. A segunda metade do século XIX foi, por excelência, a época desse culto excessivo à racionalidade científica. Não se pensava que o imaginário social pudesse ter alguma relação mais estreita com a vida social em suas várias dimensões.

Mas o imaginário, no pensamento político e social contemporâneo, toma um outro lugar. Ele passa a ser visto como um eixo orientador para a vida social e individual, como elemento constitutivo do político, do cultural, conferindo sentido às ações sociais. Desse modo, o imaginário surge como sendo a própria essência da sociedade, a força criadora e mantenedora da ordem social, assim como o seu próprio fator de transformação, enfim, o “motor histórico social”.

O imaginário social não é simplesmente, segundo Castoriadis (1986), a imagem de alguma coisa. É uma “criação incessante e essencialmente indeterminada (social-histórica e psíquica) de figuras / formas / imagens, a partir das quais somente é possível falar-se de ‘alguma coisa’. Aquilo que denominamos ‘realidade’ e ‘racionalidade’ são seus produtos” (p.13).

Foto por Olga Lioncat em Pexels.com

Nesta visão, todo pensamento acerca da sociedade e da história pertencem, em si mesmo, à sociedade e à história. Todo pensamento, independentemente de qual seja o seu objeto, é apenas uma forma do “fazer” e do “ser” social e histórico. Isto é; o pensamento (a imaginação) é uma forma de entendimento do mundo, de reflexão e da possibilidade que ele se transforme a partir da emergência de novas formas de pensamento, de novas formas de imaginário que se fundem no meio social.

O pensamento racional, o processo de “elucidação”, é o trabalho que o homem utiliza para refletir sobre o que faz e de saber o que pensa. A sociedade é, então, uma criação infinita de pensamentos, de imagens sobre o “fazer” e o “dizer” (pensar) dos homens. O “fazer” e o “dizer” se institucionalizam e se transformam através da história. A partir do momento em que uma forma de pensamento / imaginação se institui na sociedade e, ao mesmo tempo, institui um modo de “fazer” e “dizer” do social, as suas próprias incoerências ou resistências possibilitam a criação de novas formas de pensamento, do “fazer” e do “valer” sócio-histórico. Tais formas são avaliadas e discutidas por outros critérios que não mais os anteriormente instituídos.

Um imaginário ou outro, assim como a fusão deles, são momentos e formas de auto criação da sociedade. De acordo com Castoriadis (1986), o mundo social é a todo momento constituído e articulado em torno de um determinado sistema de significações simbólicas, o que o autor denominou de “imaginário efetivo” ou o “imaginado”. O simbolismo institucional e a funcionalidade do social só podem ser compreendidos apelando-se para uma análise da rede de relações simbólicas existentes num dado contexto social histórico.

O papel das significações imaginárias é o de fornecer uma identidade para o social, dar uma resposta, uma explicação coerente para aquilo que praticamente todo mundo se pergunta: Quem somos e o que queremos?

Ao responder essas perguntas é que uma sociedade se constitui. E as perguntas, assim como as respostas surgem durante o processo do “fazer” de cada sociedade, ou seja, em sua atividade histórica, política e cultural. Dito de outra maneira, o papel das significações imaginárias é o de fornecer respostas sobre nós mesmos, enquanto uma coletividade. Respostas que não podem ser fornecidas nem pela “realidade” e nem pela “racionalidade”, a não ser num sentido muito específico. O “ser” da coletividade é dado a partir do momento em que cada um se define e é definido pelos outros em relação a um “nós”. Mas o que é uma coletividade? É, antes de tudo, um sistema de símbolos, as suas próprias insígnias de existência. Tal significante remete a significados de qualidade e de propriedade sociais. E um significado é nada mais que um nome. Não é “real” e nem “racional”, mas, imaginário. Esse significado se constitui, adquire peso e se materializa na instituição que tem a função de colocar a sociedade como existente, de responder a pergunta de seu “ser” e de sua identidade, referindo-os à símbolos que a unem a uma outra “realidade”.

O imaginário social, na visão de Castoriadis (1986), tem um efeito real sobre a sociedade. A imagem sobre o mundo social é, ao mesmo tempo, a imagem de quem pensa e age no mundo; ou como frisa o autor: “Um sistema de significações determina escolhas que valorizam e desvalorizam, estruturam e hierarquizam um conjunto cruzado de objetos e de faltas correspondentes, no qual pode-se ‘ler’ mais facilmente do que em qualquer outro, essa coisa tão incerta como incontestável que é a orientação de uma sociedade” (p.81).

BACZCKO, Bronislaw. Imaginação social. In: Enciclopédia Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional, Casa da Moeda, v.05, 1985.

CASTORIADIS,Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

Chique é consumir de forma consciente e barata

Rogério Cavalcanti

Quem está antenado com o universo da moda já percebeu que a tendência atual – e para os próximos anos – é a sustentabilidade ligada ao consumo de roupas e acessórios, além de outros tipos de produtos. Esta ideia inovadora vem angariando cada vez mais adeptos dos mais variados estilos por todo o mundo, inclusive aqui no Brasil. Por estas bandas é possível notar como tem aumentado vertiginosamente o número de pessoas, famosas ou não, que frequentam bazares e brechós espalhados pelas diversas cidades do nosso país e também pela Internet.

Acontece que bazares e brechós estão se tornando lugares ideais para quem busca encontrar uma peça exclusiva e de qualidade a preços atraentes, bem abaixo dos praticados pelo mercado.

Além disso, esses lugares cheios de charme e bastante descolados representam mais do que simplesmente uma loja de roupas ou de objetos usados. Eles simbolizam um estilo de vida livre e despojado, próprio de uma pessoa consciente das questões que envolvem a vida em sociedade e sua relação com a economia e com a natureza. Num bazar ou num brechó bem incrementado, é possível encontrarmos soluções pontuais para nossa casa e estilo e, também, nos encantarmos com as belas surpresas que nos aguardam, cada uma mais interessante do que a outra.

Atualmente, lugares como esses se encontram espalhados pelo mundo inteiro e, como disse lá em cima, vem ganhando adeptos entre as mais variadas celebridades. Uma delas, a Top Gisele Bündchen, segundo consta, costuma frequentar brechós na cidade de Nova Iorque. Outro caso famoso é o da atriz Julia Roberts que participou da cerimônia de entrega do Oscar vestindo um modelo que, conforme ela própria declarou, foi comprado em um brechó por uma bagatela de nada mais do que 20 dólares. Até mesmo a atriz de Hollywood, Nicole Kidman, também já revelou ser uma cliente assídua de brechós como afirma Sandra Parani no seu artigo “A sustentabilidade da moda brechó”.

Como dá para notar, este segmento atrai um público bastante variado e exigente que, além de artistas e celebridades, costuma também ser frequentado por pessoas de diferentes idades e classes sociais.

E essas pessoas buscam encontrar, além de preços mais em conta, artigos originais e únicos, o que é outra vantagem oferecida nesses lugares alternativos: a exclusividade dos artigos, pois, raramente alguém terá outra peça igual a sua. Isso quer dizer que fazer compras em um bazar ou em um brechó não é a mesma coisa que ir ao shopping, por exemplo, onde encontramos expostas várias peças da mesma roupa ou modelo, porém em tamanhos e cores variados.

Que o consumidor atual está mais exigente e mais consciente de suas atitudes e responsabilidades, nós já sabemos; e uma consequência disso é que vem crescendo também a ideia de que comprar em bazar ou brechó é estar super na moda, ou seja, ser chique de uma maneira mais ampla, pois significa, antes de tudo, uma atitude inovadora e uma defesa criativa das práticas de sustentabilidade. Exatamente! Ao comprar uma peça seminova ou de segunda mão, você vai contribuir para que novas peças de roupas deixem de ser produzidas, colaborando direta e indiretamente na redução do uso de matérias-primas e insumos que serão utilizados na fabricação das roupas que usamos. Dessa forma, com o consumo consciente e sustentável, estaremos contribuindo para a preservação do meio ambiente, além de economizar uma boa grana. Não é o máximo? Pois é… Num bazar ou brechó bem estruturado podemos encontrar praticamente de tudo, como peças de roupas e acessórios que, por algum motivo, nunca foram usados ou que foram pouco ou quase nada utilizados, peças provenientes de lojas que faliram ou de coleções passadas de grifes e coisas desse tipo. Além de roupas, calçados, cintos, bolsas e carteiras, é possível encontrarmos também móveis antigos e novos, bicicletas, brinquedos, objetos de arte, equipamentos eletrônicos e eletrodomésticos, louças, bijuterias e utensílios de uso doméstico em geral e otras cositas más.

Foto por cottonbro em Pexels.com

Enfim, com tudo isso dá pra dizer que um bom bazar ou um brechó, além de representar uma economia e tanto no orçamento e um incremento exclusivo no visual, ainda pode ser a solução para muitos artigos e produtos que “já não têm mais utilidade para seus antigos donos, mas que podem perfeitamente ser úteis para novos donos”1. Portanto, quem deseja economizar e, além disso, preservar o meio ambiente e praticar a sustentabilidade de forma eficiente e consciente, não pode deixar de seguir à risca a orientação dos 3R’s: Reduzir, Reutilizar e Reciclar! E onde mais poderíamos praticar esta ideia de forma tão prazerosa senão visitando, seja no mundo físico ou no virtual, um belo, gracioso e exuberante bazar? Por isso é sempre bom lembrar: estar na moda é preservar a natureza; “chique é comprar barato”.

1 Sandra Parani. A sustentabilidade da moda brechó. (http://www.artigonal.com/meio-ambiente-artigos/a-sustentabilidade-da-moda-brecho-6777729.html).

Tópicos de antropologia médica. Considerações iniciais

Apresentação de aspectos gerais sobre as bases evolutivas das doenças humanas

Comentário sobre a obra “De Anima” (Sobre a Alma) de Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.)

Rogério Cavalcanti

“A alma é o primeiro ato de um corpo natural que possui vida em potência”

Nesta obra, considerada como um dos primeiros estudos de psicologia, Aristóteles busca investigar o que é a alma, sua relação com o corpo e como ela produz a vida nos “seres viventes”, voltando sua filosofia natural para o entendimento do mundo animado ou orgânico. Animado porque os seres orgânicos se caracterizam, sobretudo, por possuírem internamente o princípio da sua própria existência – a alma – que é representado, pelo fundador do Liceu, como a forma (ideia e “substância primeira”) do corpo, que o dota da capacidade de se alimentar, reproduzir, locomover e pensar.  Na metafísica aristotélica, alma é “ato” (forma) e o corpo “potência” (matéria); e o animal (ser animado) é a alma e o corpo, isto é, a “substância composta” pela forma e pela matéria. Este conceito de “ato” (ou “atualidade”) traz implícito princípios como os da “disposição” e da “atividade” da alma. Já o corpo, em si, é compreendido como sendo, essencialmente, “matéria” (ou “substrato”) e, assim, é apresentado como “potência”, ou seja, um ente dotado dos princípios do “movimento” e da “modificação”, uma “segunda substância” capaz de receber as impressões (ou formas) da alma.

Aristóteles divide seu tratado em três livros que representam momentos distintos na elaboração da sua noção de alma. No primeiro livro, o filósofo ateniense traça um quadro geral das discussões anteriores sobre a questão, resgatando os ensinamentos de seus predecessores, inclusive Platão (428/427 a.C. – 348/347 a.C.), de quem foi aluno na Academia. Sua intenção é analisar os argumentos e ideias dos filósofos que se debruçaram sobre este intrincado tema, buscando extrair de suas teses, através do exercício da lógica, alguns “princípios verdadeiros” que estariam relacionados à alma e, obviamente, negando outros que, na sua acepção, seriam falsos. Com efeito, neste primeiro momento, Aristóteles, opondo-se aos seus antecessores, infere que a alma, princípio da vida, seria a) indivisível, pois, apesar das diferentes espécies de seres, subsistiria uma “alma comum” a todos; e b) imóvel, já que ela move o corpo, no entanto, sem mover-se a si mesma ou ser movida por algo.

Desta maneira, seu pensamento conflita com o de Demócrito de Abdera (460 a.C. – 370 a.C.), filósofo atomista que afirmava que o corpo se move graças à ação de “esferas indivisíveis, individuais, invariáveis e eternas” que, por sua própria natureza (esférica) nunca podem permanecer em repouso. Contra esta tese, chamando a atenção justamente para o fato do repouso (já que as coisas também parecem repousar), argumenta Aristóteles: “Mas nós havemos de perguntar se são estes mesmos átomos esféricos que produzem também o repouso; como o fariam é difícil dizer, ou mesmo impossível. E não é, de todo, assim que a alma parece mover o animal, mas sim mediante algum tipo de escolha e pensamento”. Portanto, na sua visão, o fato do animal se mover, não implica, necessariamente, que a alma se mova, mas que ela move o corpo por meio das atividades dos órgãos ligados à sensação, no caso dos animais irracionais; e, também, de processos psicológicos como sentimentos e desejos, no caso dos seres racionais. As plantas, por seu turno, não possuem os órgãos necessários para que suas almas as pudessem pôr em movimento e, desse modo, vivem (isto é, se nutrem e se reproduzem) no repouso.

Além de Demócrito e de outros filósofos pré-socráticos, Aristóteles confronta-se ainda, de certo modo, com a perspectiva de Timeu, em Platão, o qual argumenta que a alma, por ser ou estar ligada a uma “forma inteligível que existe por si mesma” (um tipo de emanação do “Demiurgo” ou Deus criador), move-se no espaço e que, por estar ligada ao corpo, ao mover-se, ela também o moveria. No entanto, Aristóteles percebe um problema de método neste tipo de explicação, uma vez que ela não distingue diferentes tipos de corpos viventes, inclusive alguns que não se movem, como dito, os vegetais:

“Há, contudo, algo de absurdo, tanto nesta doutrina, quanto na maioria das doutrinas acerca da alma: põe em contato corpo e alma, e introduzem a alma no corpo sem especificarem melhor porque motivo e como é que o corpo se comporta”, argumenta o filósofo.

Segundo o seu pensamento, os filósofos anteriores preocupavam-se apenas em apontar que tipo de coisa é a alma, sem levar em consideração os diferentes tipos de corpos que acolhem esta mesma alma. Para ele, cada ser parece possuir uma forma específica ou uma estrutura própria que irá alojar almas diferentes. Estas almas, apesar de se dividirem de acordo com as espécies viventes, todas elas convergiriam para uma só alma, a anima mundi, ou a “alma do mundo”, embora apresente este conceito numa perspectiva diferente das anteriores. Nas palavras do autor, tem-se que: “Em cada uma das partes, porém, estão todas as partes da alma e nenhuma a menos. E elas são da mesma espécie entre si e em relação à alma inteira – as diversas partes são inseparáveis uma das outras, embora a alma inteira seja divisível”. Mesmo que seja “divisível” em número (ou quantidade) devido à diversidade de seres, a alma permanece “una” porquanto se unifica num gênero específico de vida, qual seja, a dos “seres viventes”.

No segundo livro, Aristóteles procura traçar a sua “noção geral” de alma, isto é, um conceito abrangente que pudesse incluir as diferentes formas de vida: “Tendo dito o suficiente sobre as opiniões a respeito da alma fornecida por nossos predecessores, retomemos como que do começo, e tentemos definir o que é a alma e qual seria seu enunciado mais geral”, ensaia o filósofo. Novamente, recorre-se aqui à metafísica formulada pelo autor, segundo a qual “todo o corpo que participa da vida será, consequentemente, uma substância”. Esta “substância”, que são os “organismos”, é composta pela forma (alma) e pela matéria (corpo). Argumenta Aristóteles: “Dizemos que a substância é um dos gêneros do ente. Ela é, numa primeira acepção, matéria, o que não é, por si mesmo, este algo; noutra acepção é a forma segundo a qual já é dito este algo e o aspecto; e, numa terceira acepção, é o composto da matéria e da forma. Ora a matéria é potência, enquanto a forma é ato”.

Segundo sua lógica, apesar de existirem “tipos de almas” diferentes, existiria algo comum a todas. Este algo em comum seria o fato da alma se constituir como o “primeiro ato de um corpo natural que possui órgãos”. São os órgãos do corpo (ou dos sentidos) que irão servir de apoio (como “mecanismos”) para que alma possa percepcionar e discorrer sobre o mundo. As percepções do mundo derivam, então, do fato dos seres possuírem ou não determinados órgãos, e é isto que define que tipo de alma habita determinado tipo de corpo. Aristóteles argumenta que a alma é um “certo ato e forma do ente que possui a capacidade de ser de um determinado tipo”, isto é, a cada tipo de ser vivo que possui uma determinada estrutura orgânica, irá corresponder um tipo específico de alma, que, por seu turno, irá possuir ou desenvolver determinadas “faculdades”. Destas “faculdades da alma”, nem todas pertenceriam a todos os seres. As “faculdades” listadas por Aristóteles que correspondem às almas, em geral, são: nutritiva, perceptiva, desiderativa, de deslocamento e discursiva. As plantas possuem apenas a faculdade nutritiva (responsável pelo crescimento e reprodução). Outros seres também possuem esta faculdade (comum a todos), mas, no entanto, possuem outras que as plantas não têm, como por exemplo, a faculdade perceptiva e desiderativa (relacionada aos desejos, ou seja, apetite, impulso e vontade). E a outros animais pertencem, ainda, além destas “faculdades”, o entendimento e o discurso – este é o caso dos homens.

Em suma, Aristóteles examina os tipos de “seres viventes”, a estrutura interna e externa de seus corpos e, com isso, busca determinar que tipos de alma (ou formas) habitariam tais tipos de corpos (ou matérias), constituindo, então, os diferentes tipos de entes (ou seres vivos).

Com isso, o filósofo chega à uma tipologia da alma, estabelecendo uma classificação a partir de suas “faculdades” específicas. Nesta classificação, temos a “alma vegetativa”, típica das plantas e que possuem as faculdades da nutrição e da reprodução. A “alma sensitiva” que diz respeito aos animais em geral e possui as faculdades da sensibilidade e da locomoção. Por último, temos a “alma racional”, que possui a faculdade do pensamento e é típica dos seres humanos ou, “se existir, de um outro ser de natureza semelhante ou superior”. Cabe frisar que o filósofo estabelece uma hierarquia de “faculdades”, onde um ser da espécie superior irá possuir sempre as capacidades desenvolvidas nos seres inferiores, ou seja, o animal é sensitivo e se locomove, mas também se nutre e se reproduz como as plantas. Já o homem, além de fazer tudo o que as plantas e animais (irracionais) fazem, ainda pensa.

No terceiro livro do seu tratado sobre a alma, Aristóteles irá construir argumentos para tentar provar que a alma é o princípio da vida no ser, responsável pelas capacidades (ou “faculdades”) que irão se desenvolver nos diferentes seres que manifestam algum tipo de vida: “Retomando o princípio da investigação, digamos então que o animado se distingue do inanimado pelo viver. E de muitos modos se diz o viver, pois dizemos que algo vive se nele subsiste pelo menos um destes – intelecto, percepção sensível, movimento local e repouso, e ainda o movimento segundo a nutrição, o decaimento e o crescimento”. Assim, a alma, definida pela forma, seria a causa da vida que se configura como o princípio (ideia ou “substância primeira”) das atividades próprias dos “seres viventes”.

A vida dos seres depende da maneira como eles interagem com o mundo a partir da estrutura de seus corpos (ou órgãos do sentido). Aristóteles estabelece, então, uma discussão filosófica sobre alguns tipos de interação dos “organismos” com o mundo, chamando a atenção para as diferenças entre as capacidades de percepção, imaginação e pensamento. Segundo ele, é a alma que percebe, imagina e pensa: “O sensível é, manifestamente, o que faz passar a faculdade perceptiva da existência em potência para a atividade”, ou seja, nesta perspectiva, viver é “percepcionar”, o que implica em conseguir perceber e compreender o sentido de algo através da inteligência ou por meio das sensações; o que só é possível acontecer devido às “faculdades da alma”. Aristóteles chega a distinguir essas “faculdades” e caracterizá-las, buscando, sobremaneira, compreender o funcionamento da mente humana. Com isso, identifica funções diversas na mente tais como o intelecto, as sensações, o apetite e o desejo, sendo que o intelecto seria “a parte da alma com a qual esta conhece e pensa”. É como se os sentidos tivessem a função de perceber o mundo material através das “formas sensíveis” (estando presente ou não a matéria) e o intelecto de refletir ou pensar sobre ele, ou seja, perceber as “formas inteligíveis”.

À guisa de conclusão, torna-se necessário citar a distinção feita pelo autor entre os dois tipos de intelectos que se alojariam na mente humana: os intelectos “ativo” e “passivo”. O “intelecto ativo”, segundo Aristóteles, transforma as sensações em percepções abstratas ou conceitos, enquanto o “intelecto passivo” captura ou recebe as formas e os conteúdos das coisas, além dos efeitos que essa experiência sensorial provoca nos seres. Assim, o “intelecto passivo”, como um tipo de “substância”, pode transformar-se, potencialmente, em qualquer coisa ao receber as impressões da forma inteligível, isto é, o “intelecto ativo”. Este lança sua luz sobre o “intelecto passivo”, transformando o conhecimento potencial das sensações em conhecimento na realidade do mundo. Alguns comentaristas, especialmente na Idade Média, e o próprio filósofo chegaram ao entendimento de que o “intelecto ativo” seria o equivalente a Deus ou um “motor invisível”, já que move todas as coisas e não se move e nem é movido por nada: “Deve haver um primeiro motor que não se move, mas que move o mundo de maneira atrativa, e não propulsora. Se este primeiro motor move o mundo sem se mover, significa que ele tem de ser imutável. Sendo um ser imutável, significa que tem de ser puramente imaterial, ou seja, pura forma, puro ato. E se é puro ato, tem que ser perfeito”, como informa o antigo Mestre.

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